domingo, 26 de janeiro de 2014

Morte súbita no desporto

Médicos especialistas da FIFA informaram que entre 2009 e 2013 contabilizaram, em todo o mundo, a morte de 84 jogadores de futebol enquanto treinavam ou disputavam jogos, devido a problemas cardíacos.

Os dados foram compilados pela comissão médica da FIFA com informações remetidas por 129 das 208 federações associadas ao organismo e é um ponto de partida para criar um registo detalhado que possa servir para prevenir futuras mortes.


A média de idade dos futebolistas era de 24,9 anos e até agora só 19 federações nacionais tinham um registo médico sobre este tipo de mortes, pelo que este número não indica o total de todos os futebolistas afectados, mas somente aqueles casos que foram registados.

O choque é maior pelo simples facto dos atletas serem considerados pela sociedade como um grupo especial de indivíduos, aparentemente invulneráveis e com capacidades físicas extraordinárias. Por esse motivo, qualquer evento cardiovascular em atletas, sobretudo ao mais alto nível, tem um enorme impacto mediático nos meios desportivos, nos profissionais de saúde e no público em geral.

Casos mediáticos


Pavão (1973)
in maisfutebol.iol.pt
Em Portugal, o primeiro caso de morte de um jogador em campo de que há memória foi o de Pavão, jogador do FC Porto que caiu inanimado no relvado após efectuar um passe. Na altura (13-03-1973), muito poucas pessoas podiam assistir a jogos pela televisão, pelo que o caso não teve grande repercussão.

Marc-Vivien Foé (2003)
in eclairdafrique.com
Todavia, tudo mudou com a morte do camaronês Marc-Vivien Foé, em pleno jogo da Taça das Confederações (2003), durante o jogo entre a Colômbia e os Camarões. Este foi, na verdade, o primeiro caso com grande repercussão mundial, dada a transmissão televisiva daquele evento desportivo. Foé tinha 28 anos. O relatório da autópsia revelou uma cardiomiopatia hipertrófica, doença de difícil diagnóstico e hereditário.

Miklos Fehér (2004)
in olharpovoacense.blogspot.com
A morte de Miklos Fehér (25-01-2004), aos 23 anos, colocou o mundo em alerta para o problema da morte-súbita no desporto. O relatório da autópsia revelou igualmente uma cardiomiopatia hipertrófica apical, de muito difícil detecção.

Bruno Baião (2004)
in joaopspereira47.blogspot.com
No mesmo ano, o Benfica voltou a perder um jogador. Desta vez, uma esperança do futebol "encarnado", Bruno Baião. O jogador de 18 anos tinha terminado um treino e, pouco depois de receber uma chamada telefónica em que era informado de que assinaria um contrato profissional com o clube da Luz, caiu inanimado. Foi assistido no local pelo massagista e também por elementos do INEM. Já nas urgências do Hospital Curry Cabral, voltou a sofrer nova paragem cardío-respiratória. Acabou por falecer quatro dias mais tarde onde permaneceu internado em coma profundo.

Serginho (2004)
in diegodavila.blogger.com.br
Ainda em 2004, novo caso. O Brasil ficou chocado com a morte em campo de Serginho, do São Caetano, durante um jogo contra o São Paulo. Não havia um desfibrilhador - aparelho utilizado para tentativas de reanimação cardíaca por intermédio de choques eléctricos. Desde então, o equipamento passou a ser obrigatório nos estádios brasileiros.

Antonio Puerta (2007)
in marca.com
Em 2007, novo episódio. Em Espanha, Antonio Puerta, jogador do Sevilha, caiu dentro da grande-área após sofrer uma paragem cardíaca. Os jogador foi prontamente assistido e recuperou os sentidos, saindo do relvado pelos próprios pés, embora visivelmente combalido. No entanto, o jogador viria a sofrer diversas paragens cardio-respiratórias a caminho do hospital, onde esteve internado durante três dias, acabando por não resistir.

Phil O’Donnell (2007)
in veja.abril.com.br
No mesmo ano, o escocês Phil O’Donnell estava prestes a ser substituído quando passou mal na partida entre Motherwell e Dundee United. O meia foi de ambulância para o hospital, mas morreu por causa de uma parada cardíaca.

Daniel Jarque (2009)
in veja.abril.com.br
Aos 29 anos, o espanhol Daniel Jarque foi encontrado morto no quarto do hotel durante a pré-temporada do Espanyol, em 2009. O ex-capitão da equipa espanhola morreu devido a um ataque cardíaco sofrido depois de um treino.

Piermario Morosini (2012)
in publico.pt
A 14 de Abril 2012, durante um jogo da série B entre o Livorno e o Pescara (Itália), o futebolista Piermario Morosini foi vítima de uma paragem cardio-respiratória. O jogador foi transportado para o hospital onde viria a falecer. A sua morte deveu-se um problema cardíaco de ordem genética, segundo concluiu o relatório final da autópsia, divulgado pela imprensa italiana. Morosini morreu aos 25 anos, em mais um caso que chocou o mundo do futebol.

Henry Chinonso Ihelewere (2012)
in terceirotempo.bol.uol.com.br
Em Agosto do mesmo ano, faleceu o jogador nigeriano Henry Chinonso Ihelewere morreu após sofrer uma parada cardíaca durante uma partida de futebol na Roménia. O jogador do Delta Tulcea tinha apenas 21 anos e tinha acabado de entrar em campo para substituir um colega durante um jogo particular contra o Balotesti. O jovem atacante perdeu os sentidos 15 minutos depois de entrar em campo. Ainda foi transportado para o hospital, mas as tentativas de reanimação não foram bem sucedidas.

Abandonos Forçados

O número crescente de casos mediáticos veio alertar a comunidade desportiva para estar mais atenta ao fenómeno levando a várias campanhas de prevenção, debates e à incorporação de equipamentos de suporte à vida, tais como os desfibrilhadores.

Apesar de continuarem a suceder alguns casos nos recintos desportivos um pouco por todo o mundo, também é maior o alerta clínico em relação a quaisquer fragilidades. E assim tornou-se possível salvar alguns atletas.

Ruben de la Red (2008)
in globoesporte.globo.com
O espanhol Ruben de la Red, de 25 anos, também foi obrigado a abandonar o futebol. Em 2008, o jogador do Real Madrid desmaiou durante um jogo da Taça do Rei. Depois de alguns instantes sem reagir, De la Red recuperou os sentidos e foi transportado aos balneários, de onde seguiu para o Hospital Bidasoa para fazer exames, os quais confirmariam a existência de problemas cardíacos.


Fábio Faria (2012)
in record.xl.pt
Em Março de 2013 o jogador Fábio Faria anunciou, aos 23 anos, o fim da sua carreira futebolística devido a problemas cardíacos, depois de, em 2012, ter sofrido uma paragem cardíaca em campo. O incidente ocorreu na estreia do jogador no Rio Ave, a contar para a Taça da Liga frente ao Moreirense, logo após o final do encontro. Foi encaminhado à Unidade Hospitalar do Alto Ave (Guimarães), com suspeitas de quebra de tensão, mas afinal tratou-se de problemas cardíacos que o obrigaram a abandonar a modalidade.


Fabrice Muamba
in jn.pt
O inglês Fabrice Muamba (22 anos) anunciou nove meses depois de ter sofrido uma paragem cardíaca durante um jogo da Taça de Inglaterra a sua retirada. A 17 de Março de 2013, Muamba desfaleceu no relvado de White Hart Lane, em Londres, antes do intervalo do encontro dos quartos de final da Taça de Inglaterra contra o Tottenham, tendo estado em paragem cardíaca durante 78 minutos. O futebolista, de origem congolesa, foi salvo graças à ajuda de um desfibrilhador .

Possíveis Causas:

A Idade

As causa apontadas para o fenómeno da morte-súbita são variadas e dependem da idade. Assim as vítimas pode ser incluídas em dois grandes grupos:
  1. Indivíduos com idade inferior a 35 anos
  2. Indivíduos com idade superior a 35 anos
As causas de morte-súbita em atletas com idade inferior a 35 anos deve-se frequentemente a anomalias cardíacas estruturais. Na maioria das vezes tais anomalias são detectadas só depois de ocorrerem acidentes de ordem cardíaca, o que, infelizmente, costuma ser tarde demais para a recuperação.

Já nos atletas com idade superior a 35 anos a principal causa é a doença arterial coronária aterosclerótica, que corresponde à formação de placas de gordura nas paredes das artérias do coração e pode desencadear o enfarte agudo do miocárdio. Tal situação pode conduzir a arritmias ventriculares fatais.

O Esforço Físico

Durante a actividade competitiva, o stress físico, cardiovascular e emocional estão associados ao aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial e das necessidades do consumo do oxigénio pelos músculos e coração podem desempenhar o papel de "gatilho" para um evento arrítmico fatal. No entanto, a maioria das arritmias observadas em atletas e na população em geral é de natureza benigna (bradicardia) e compatível com a prática de exercício.

Assim,  maioria dos casos de morte-súbita resulta de arritmias malignas como a taquicardia ventricular e a fibrilhação ventricular.

Existem outras causas como as doenças das válvulas cardíacas, doenças da artéria aorta, miocardites por infecções provocadas por vírus e embolias pulmonares.

Contusões

Uma outra causa para uma paragem cardio-respiratório é uma contusão na parede torácica, embora seja raro.

Pessoalmente tive conhecimento de um caso em que um irmão meu esteve envolvido. Um forte remate seu atingiu o adversário que se sentiu mal, sendo substituído e acabando por falecer pouco depois. Estas situações acontecem devido ao impacto de um objecto (neste caso, uma bola) numa área específica do tórax num momento especialmente vulnerável do ciclo cardíaco.

Temos ainda o exemplo do ex-internacional português João Vieira Pinto que, após um choque com um adversário, sofreu uma paragem cardio-respiratória durante um jogo em Espanha pelo Atlético de Madrid.

Comportamentos de risco

Certos comportamentos de risco como o consumo de drogas, de tabaco, de produtos dopantes, aumentam os riscos de ordem cardíaca perante um esforço intenso.

Equipamentos e dispositivos auxiliares

Em situações de paragem cardíaca o único tratamento eficaz é o suporte básico de vida e o choque de desfibrilhação eléctrica, cuja eficácia decresce em 10% por cada minuto que passa, devendo ser administrado nos primeiros 6 minutos após a paragem.

Prevenção

A primeira forma de prevenção para esta enfermidade é o exercício físico regular, uma vez que a sua prática traz benefícios, nomeadamente na prevenção das doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, cancro, osteoporose, depressão, entre outras.

No entanto, ela deverá ser realizada de acordo com a idade, as capacidades individuais e, sobretudo, as recomendações médicas, as quais podem salvar vidas.

Algumas doenças cardíacas congénitas evoluem silenciosamente durante vários anos., podendo revelar-se apenas depois de grandes esforços físicos, tal como acontece com os atletas. Daí a necessidade de promover avaliações médicas regulares.
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